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DIFERENÇAS ENTRE “EU” E “MEU”
As duas palavras mais comuns na maioria das línguas são, provavelmente, eu e meu. Nossos mundos pessoais giram quase exclusivamente ao redor delas. É preciso entender suas implicações mais profundas se quisermos delinear novamente nossos limites.
Normalmente, uso a palavra meu para referir-me a todas as coisas que não são eu — minha mão, meu rosto, minha perna ou até meu cérebro, minha mente, minha personalidade, e assim por diante. Da próxima vez que eu disser minha alma, talvez me lembre de que realmente não posso dizer minha alma, pois eu sou uma alma.
A diferença entre eu e meu é a mesma que entre alma e corpo. O exemplo de uma
faca ilustra isso. Posso usá-la para cortar um tomate ou para apunhalar alguém. A faca
nem decide nem experimenta, mas pode ser lavada facilmente debaixo de uma torneira. É fácil perceber que a faca é um instrumento, mas é mais difícil perceber que os dedos são um instrumento também, e não apenas os dedos como também os braços. As pernas são instrumentos para andar, os olhos para ver, os ouvidos para ouvir, a boca para falar, respirar e saborear, o coração, para bombear alimento e oxigênio para o corpo, e assim por diante. Mesmo o cérebro é como um computador usado para expressar todos os programas de pensamentos, palavras e ações pelo corpo e para experimentar os resultados. Se cada parte física do corpo é um instrumento, quem ou o que o está usando?
Muito simples: sou eu para si e a palavra meu para se referir ao corpo: minha mão, minha boca, meu cérebro. Eu sou diferente de meu corpo.
Por meio da consciência de meu, expandi-me muito longe — não apenas com relação ao corpo e às faculdades internas, mas com relação às posses e relacionamentos: minha casa, meu carro, meu filho etc.
Com o tempo, todos, todos esses meus que tento agarrar escapam de meus dedos. Percebo sua natureza efêmera e, por falta de alternativas disponíveis, tento me agarrar a elas ainda mais e, assim, desenvolvo apegos e dependências. Enquanto essa identificação persiste, minhas qualidades inatas (isto é, o que é realmente meu) estão fora de alcance. Quando assumo minha verdadeira identidade como um ser espiritual, imediatamente recebo também acesso ao amor, à paz, à felicidade e ao poder que são partes de mim.
Uma lista de todos os fatores que me criam limites provavelmente incluiria itens como idade, sexo, saúde, família, profissão, defeitos e fraquezas. Ao reivindicar direito de posse de tudo isso, por meio da palavra meu, estabeleço os limites dentro dos quais tento operar minha vida. Tendo estabelecido minhas próprias cercas, sempre que a tristeza aparece, um desses fatores torna-se automaticamente o bode expiatório.
Em vez de apontar o dedo numa forma de acusação ou queixa, posso adotar uma abordagem mais positiva. Posso ser mais realista e aceitá-los não como fatores limitantes, mas como instrumentos que podem ajudar-me a melhorar minha experiência de vida. Essa mesma lista pode ser o trampolim de minha transformação e liberdade.
Posso fazer uso total do estado ou da energia da juventude, de acordo com o caso. Posso tirar vantagem das características positivas de meu sexo, mesmo apreciando as características do sexo oposto. Minha família e vida profissional podem ser experimentadas num outro nível mais elevado. Posso descobrir por meio de fraquezas e defeitos o quanto tenho de aprender sobre mim mesmo. O problema não está na lista de fatores, mas na consciência que tenho deles. É uma questão de duas palavras: eu e meu.
Continua no Capítulo III
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