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Pacto pela paz e solidariedade

por Luciana Marques de Souza Ferraz

Paz é algo precioso nas vidas individuais, nos relacionamentos e no mundo. Experimentar paz é um direito de todo ser, mas paradoxalmente a perdemos e o desafio é como reconquistá-la. Sabemos que a paz não será alcançada apenas através de conferências e tratados internacionais. Paz também não é um conjunto de situações agradáveis ou ausência de pressões externas. Ao descobrirmos o significado mais profundo da paz, de que a natureza do ser humano é na sua origem pacífica, podemos recuperá-la.

Ser um Agente Construtor de Paz

O primeiro passo para re-experimentar a paz é assumir a responsabilidade em eliminar a negatividade e o desperdício que me roubam a paz, até sermos senhores dos nossos pensamentos, sentimentos, ações e das respostas que damos às situações que se apresentam a nós e sobre as quais não temos controle, continuaremos a ser vítimas de nossas circunstâncias. A paz começa no nosso eu, se estende para nossa família e todos os nossos relacionamentos, para a maneira como interagimos com o meio-ambiente e a matéria, em geral. Ao descobrirmos nossas verdadeiras qualidades e potencial nos motivamos para a mudança. A auto-educação é um processo de acordar para uma nova visão sobre o indivíduo, a natureza e a história. Abre a possibilidade de uma nova educação e utilização dos meios de comunicação, utilizados pela sociedade para renovar sua existência. Podemos então, ser criadores de padrões sociais e estilos de vida que gerem paz no nível do indivíduo e coletivo e conseqüentemente criem governos e políticas públicas comprometidos com valores éticos e humanos. A religião é também um poderoso mecanismo educacional para incentivar a cultura de paz. Fomentar o dialogo inter-religioso, o respeito pela diversidade de crenças e cultos, a valorização das diferenças mais do que a simples tolerância da existência do outro, é expressão da verdadeira irmandade. Somos nós os criadores do que queremos ver e viver em nossas vidas e nosso mundo.

Ser solidário: Melhora nossa Qualidade de Vida

Mesmo os sentimentos mais nobres só trazem seu máximo resultado e benefício se expressados dentro das leis da vida. Amor, cooperação, solidariedade e paz nos elevam e produzem um movimento ascendente na comunidade em que são vivenciados se são genuínos, sem traço de egoísmo e verdadeiramente altruístas. No momento em que estes valores são contaminados pelo desejo de reconhecimento próprio, ganho pessoal, dependência ou manipulação de qualquer tipo sua força é diminuída e alcance limitado. Em vez da idéia de que nossa natureza é egoísta e a solidariedade um esforço, nosso entendimento é de que a natureza do ser humano é de pureza e paz e, portanto, solidária na sua essência. Ao exercermos a solidariedade experimentamos bem-estar e uma forma de prazer espiritual que nos traz melhor qualidade de vida. O materialismo desenvolveu uma cultura individualista e consumista que distanciou o indivíduo desta atitude solidária, mas tem havido um avanço neste sentido. Entre as várias conseqüências desta transformação de paradigmas podemos salientar a ênfase no bem-estar da pessoa humana, como um ser dotado de dignidade e valor inerentes e inalienáveis, e, portanto nos valores éticos e humanos. Um segundo aspecto, o crescente incentivo ao voluntariado como método legítimo de desenvolvimento dos valores, virtudes, talentos e habilidades pessoais e de equipe em forma de associação comunitária para alcance de ideais elevados bem como solução para várias carências sociais. A solidariedade não substitui a justiça social que tem outros mecanismos para ser alcançada e é bem mais difícil, mas a solidariedade tem bem menos resistência, pois parte da capacidade humana de sintonizar-se com a necessidade do outro. E ao percebermos nossa dimensão de uma família humana global que passamos a oferecer algo para beneficiar o outro, a fazer algo pelo outro de forma voluntária. Há várias formas de solidariedade: a social, a assistencial, a política, a espiritual. Saber escutar, dar afeto, acompanhar (dar companhia), compartilhar, ensinar, motivar, devolver a esperança a alguém, aproximar-se, dar respeito, gerar autoconfiança são formas diversas de ser solidário de uma maneira mais sutil e espiritual. Em um momento como o que vivemos em que o clima de violência, medo e desânimo parecem imperar, esta forma de solidariedade é vital. Todas as vozes de paz unidas podem, em uma imensa ambição, mudar a direção atual e dirigir o conjunto da humanidade. Todos diferentes, mas irmanados pelos valores universais – rumo ao destino da harmonia e solidariedade que almejamos.

Frederico Mayor Zanagoza
Presidente da Fundação Cultura de Paz – Espanha

Luciana Marques de Souza Ferraz é Cientista Social e Coordenadora da Organização Brahma Kumaris – ONG internacional dedicada ao resgate dos valores humanos e declarada pelas Nações Unidas como Mensageira da Paz.